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A compra do Cubo Dínamo — Por JODF
26 de agosto de 2015 — 14:06
Assunto: Ciências & Tecnologia, Outros/Diversos — Tags:     

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No último post falei sobre o cubo dínamo que comprei, como o descobri e como funciona. Hoje falarei das coisas desagradáveis deste processo.

A própria forma como descobri o produto já é um grande problema. Precisei atravessar o mundo literalmente para descobrir que existia um cubo capaz de gerar eletricidade. Pior, este sistema é algo que uma criança de oito anos aprende na escola como usá-lo, lá na Bavária. Sei que muita gente pensa numa hora dessas “ah mas Europa é outra história”. Mas por que precisa ser assim? Estou falando de um produto fabricado na indonésia, de uma marca japonesa, sinônimo de qualidade e confiabilidade em componentes de bicicletas e que possui sede própria no Brasil.

Muita gente se gaba por comprar produtos na internet em sites estrangeiros. Vários desses “importadores” se orgulham por conhecer “as manhas” para burlar a fiscalização aduaneira. Esse processo de international e-commerce parece ser um ótimo exercício para reforçar o Complexo de Vira-Lata que uma parte da classe média insiste em conservar: ter algo que ninguém no Brasil tem (porque “aqui é um país atrasado”).

Muitas vezes, tal produto até existe oficialmente por aqui, “mas comprar fora fica mais barato, porque os impostos são muito altos”. A todos que chegam a esta simplória conclusão, pergunto se vocês sabem a tributação se dá de acordo com a relevância do produto (quanto mais fundamental, menos imposto) e é proporcional ao valor da mercadoria, ou seja, o que é barato paga menos imposto do que o que custa mais caro (a taxa é percentual, não é um valor fixo imutável)? Para não restar dúvidas, a regra primordial para formulação de preços, qualquer coisa vale exatamente o quanto o consumidor está disposto a pagar. Se você joga o preço para cima e as pessoas pagam, ele se sustenta caro, se não ele cai até um patamar mais aceitável.

Outro problema em potencial: e se o meu cubo dínamo não estivesse funcionando? Não adiantaria eu contatar a Shimano pois, apesar de ser a fabricante, como ela não distribui o produto oficialmente no Brasil, não tem obrigação de cumprir garantia ou de oferecer uma rede de suporte técnico (mesmo que eu pague pelo conserto).

Até encontrei uma ou duas bicicletarias brasileiras oferecendo o cubo dínamo na internet, mas nenhuma oferecia as luzes para ligar nele. E, possivelmente, essas lojas tsmbém devem traser o produto como contra-bando e e não fornecem nota fiscal ou garantia. Então optei mesmo pela compra na loja alemã, que não colocou nenhum tipo de proteção às mercadoria dentro da caixa, apenas as embalagens originais.

O pacote chegou às minhas mãos destruído! “A mas a culpa não é dos Correios Brasileiros ou da Receita Federal?”. Não, as fitas adesivas com o logo da loja estavam intactas e o pacote não foi tributado nem pelo valor declarado na nota fiscal que estava fora da caixa. Os Correios Brasileiros ainda colocaram a caixa destruída dentro de um saco plástico para que nada escapasse ao papelão destruído. A culpa foi da loja mesmo que pensou “é para a SudAmerika então foda-se”.

Depois de buscar a roda já com o cubo instalado numa bicicletaria de minha plena confiança (onde os funcionários não tinham a mínima ideia da existência da peça), não consegui fazer as luzes acender. Nas respectivas embalagens não contatavam manuais de instalação ou informações básicas sobre voltagem ou potência elétrica. Peças alemãs, fabricadas na Alemanha por um fabricante alemão. Não sei o que diz a legislação europeia (ou a alemã), mas a nossa obriga o fabricante a fornecer instruções e informações técnicas básicas.

Por fim, acessando o site da Busch & Müller (B+M), na sessão de “perguntas frequentes” descobri que a possível causa do não funcionamento seria o uso de um dispositivo estabilizador que protege a lanterna traseira de sobrecarga elétrica. A peça de segurança veio junto com o dínamo, ou seja, a própria Shimano recomenda o seu uso. Mas a B+M obriga a sua remoção completa e não garante claramente se a lanterna tem um dispositivo interno de proteção.

Após remover o estabilizador da Shimano as luzes acendem. Mas não se apagam ao desligar o interruptor. Não há informação sobre isso nem na embalagem e nem site (já procurei nas perguntas frequentes e nada consta). O motivo mais plausível saiu do vídeo postado no site da bicicletaria alemã: as luz se mantém acesas por um tempo quando a roda para, isso mantém o ciclista visível num semáforo fechado. Imagino então que, após sessar a alimentação elétrica, as luminárias descarregam as suas baterias internas para não viciá-las. É só uma especulação, não tenho como saber ao certo se é isso ou algum defeito.

Para coisas assim, o brasileiro se acomodou a colocar a culpa no governo (seja qual for legenda no poder). Mas eu prefiro responsabilizar, exatamente nesta ordem: os fabricantes, a maior interessada em divulgar o seu cubo dínamo é própria Shimano, o mesmo vale para as luzes; os fabricantes de bicicletas, Por que a Caloi, por exemplo, não oferece a peça como diferencial de alguns modelos?; as bicicletarias que devem se atualizar sobre tecnologias disponíveis e negociar a distribuição dos produtos junto aos fornecedores. Não sei em que posição entrariam, mas os cicloativistas também teriam um lugar nesta lista, pois todos eles se gabam de suas U-Locks importadas, mas nunca vi qualquer um levantar a questão da disponibilidade da trava ou qualquer item de segurança no Brasil.